CINEMAGIA ATUALIDADE





"TOTÓ"


Noite profunda Totó acorda ao som perturbante do telefone: - Alô? - Quem? Ah! , que pena!
Alfredo, grande Alfredo!
Depois que o Cine Império pegou fogo e não havia quem não se deliciasse ao contar essa história; o dia, a correria; a magia, até isto no trágico cinema de Campo Mourão, do qual quase nada se sabe, a não ser um esfumado esboço de transeuntes freqüentadores do corredor de painéis onde trabalhava Totó.
Alfredo, o dono do novo Cine Plaza cheio de asas e destinado a "santidade". Alfredo, o homem da razão fiscalizava a emoção a cada dia. Rompia o sol, lá vinha ele com passos lentos, entrecortando os raios à procura de José. José Bayeler era o faz tudo do cinema em questão, com uma lata pesada nas costas subia e descia para a cabine três lances de escadas e quando chegava embaixo ou em cima, um estrondo: o cinema de peso no chão. Bumm!
Era a prata, a matéria, a invulnerabilidade da película substancial. Erguia os olhos lentamente José em direção ao vulto, Alfredo que acabava de prostrar-se diante das latas.
- E então como foi ontem?
- É...
- Mirava o infinito corredor que acabava em tobogã enquanto procurava uma palavra mais adocicada para não admitir que o cinema estava decaindo.
- Fraquinho viu!
Encarando Alfredo com olhos dóceis em solidariedade. Totó alheio a tudo se isolava no emaranhado do próximo painel que retrataria o cartaz do novo filme.
_ É! Exclamava o Sr. Alfredo, se perdendo nas manchas de pintura:
- Cinema não dá mais nada. Desabafava, consertando a lástima com um sorriso amarelo.
José argumentava que aquela semana talvez não fosse boa, mas que poderia melhorar com a chegada de novos lançamentos.
Guerra nas Estrelas, Tubarão, Aeroporto, King Kong. Eis os sustentáculos que mantinham o Cine Plaza na sua última performance.
Totó Oh Totó! Romantizava e pintava.
O cinema é pintura, Lumiére foi o último dos impressionistas, não importa tanto o filme, tanto o que, mas o como. O Alfredo, O José, o Totó, o barulho das latas no chão. A Kombi do Expresso Nordeste trazendo o Superman e quatro homens erguendo o novo painel do próximo filme.
Uma história não se sustenta, apaga-se, mistura-se, descora-se. Se não há cabine, se não há pilhas de latas, se não há peso, se não há carvão, luz chaminé e zum zum zum, não há cinema.
O cinema não se desmoronava porque as colunas eram fortes, eternas como vai provar Totó que ao voltar para chorar a morte de Alfredo, ainda lá as encontrará intocáveis. No alto um emblema a Jesus e tudo liso, plano, desiconoclastificado-Silêncio-eco e céu. Céu azul sem azul, céu sem nuvem, céu sem Deus. Céu de palavras. No fim volta o verbo-somente o verbo. O trabalho fora grandioso, purificador - o fogo contemporâneo que lambeu os painéis e lustrou o piso. Não há porque cabine, o segredo não vem de uma sala pequena, de uma caixa preta. A câmera é clara - esclarecida, mecanizada como um campo que virou pasto, como uma pequena propriedade que virou latifúndio.
Totó foi para o velório de Alfredo no cinema, sem imagem, sem caixão, sem flores. Totó não resistiu e mal desceu do carro e liquidou-se. Totó deu alguns passos e insistiu na imagem, fotografou. A câmera rangeu, (essa câmera é velha Totó, compre uma digital) a foto ficou lisa, sem cor, sem forma, vazia, polida, lustrada, gelada, estática. (não houve fotoshop que desse jeito).
Totó subiu a escadaria, relutou, mas caiu no abismo de fé. Abismo convexo, anticôncavo do cinema sem lente, envolto numa fumaça imaginária. Totó queria doce, mas a bomboniére foi extinta. Nada de ilusões. Na cruz se bebe vinagre, ou não. Tudo ficou menor, quadrado, geométrico e muito bem cuidado.
Horizontal-vertical. Antibarroco, antiovais, antiemblemas. Sinais sim, mas o de transmissão de vídeo. 2005 linhas de resolução. Sem corpo, sem abraço, sem coração ou coisas infernais, sem bocas, sem pernas coisas banais, sem batom, sem tintas, sem arco-íris, a não ser o de néon. Sem medo, sem bichão-papão, sem destruição de N.Y. sem o King Kong que queria abocanhar o mundo, sem quedas de aviões, sem semideus ou homem voador.Extintas as latas safadas de arte, os rolos literalmente tramados de conflito e dor. Sem ardor sem viola, sem tristeza, sem esmola. Sem sedução no corredor privativo, voyeur apenas garagem útil e inútil. Só o que é, nada mais, sem margem, sem sobra, sem derrames, a não ser as lágrimas de Totó
Tudo isto ainda há no cinema, agora paradiso, mas escrito, falado,carimbado quando não queimado em fogo frio de uma luz flúor azul. É assim e Totó não chora pelo que foi perdido. A história significante não acabou, o mais interessante não estava na tela como sabia Totó. O mais interessante está no cerne, na vida. Na moldura da janela.Totó como de praxe era daqueles que gostava de levar para casa um pedacinho de fita e ficar horas experimentando colocá-lo na fresta de uma janela e projetá-lo com a ajuda de uma lupa. Totó não crescia irremediavelmente. Totó deixou o campo para não vê-lo aplainado em mãos globais.Notícias sempre chegaram de como estaria a cidade, a rua Brasil, mas Totó preferiu dormir longos anos. Totó dorme até que o telefone o interrompe:
- Totó preciso de você hoje para pintar o painel Aeroporto 75. Vamos garoto, não era isto que você queria?
- Sim, claro.
José, outro José, o Fleury. O sorriso encantado do cinema nos seus últimos tempos. Fleury era uma espécie de Alfredo, José Bayeler era outra espécie de Alfredo e Alfredo era o Sr. Alfredo-dono do cinema. Fleury era um marchand que sorria e o cinema enchia a mesa de dinheiro.
- O que? Este garoto ganha cinco mil por mês para pintar cartazes? Indagava as más línguas.
- Gargalhava José, pouco se lixando para que os outros achassem. Porque vemos em um mundo, falamos em outro. Não há equivalência da escrita para o sorriso, assim como da palavra para a imagem.
Fleury o prestidigitador dos letreiros como: Sucesso! Sensacional! Incrível! Emocionante! Não percam! Breve! Etc... 100 mil, 400mil, Um milhão de cruzeiros. Com seu "Dorginho", Fleury incendiada as vilas como o Lar Paraná ao alvoroçar o povo com o alto falante excitando as pessoas a comparecerem ao cinema.
"Hoje às 14 horas e logo mais as 20 e 30 , sensacional filme! Seguia-se um estrondo e um grito e uma rouca voz anunciava: Tubarão! A molecada debandavam atráz a cata de panfletos como que se aquilo fosse balas doces.
Fleury foi quem descobriu Totó, que por sua vez descobriu o cinema escondido no corredor escuro e apertado da rua Brasil. Tímido Totó quase desaparecia diante dos projetores negros e barulhentos, nas noites de projeção. O que se via então eram bocas se mexendo, mas ninguém entendia quase nada.
Alfredo certo dia achou que poderia por a mão na massa e chegando na cabine abriu uma lata e agarrou com vontade um grande rolo de fita da Professora Ternura com Gigliola Cinquetti. José Bayeler quando atentou para o perigo, bradou:
- Cuidado! Foi a gota. Ou a fita. O rolo que seguro incorretamente por nosso inexperiente Alfredo (na horizontal) vazou seu miolo fazendo as mais inimagináveis piruetas pela sala de projeção, envolvendo-se aos pés das mesas, subindo em cadeiras, dançando como pião até dormir, quando não mais faltava um lugar sequer para preencher do embaraçoso da fita do referido filme que seria exibido dentro de duas horas.Como lastimar não resolveria o problema, juntamo-nos todos a desvencilhar os caminhos a percorridos por aquela infindável fita negra que como serpente ziguezagueou por todos os cantos, levando ao desespero o experiente José Bayeler.
A solução foi a tesoura em vária partes, para em seguida desfazer-se os nós que desconcertavam qualquer tentativa de ordem.
- Ternura Totó, Ternura. Super ternura, muita ternura. 8mm de ternura.
Totó ficara grande, mas não crescera. Embora jamais tenha se esquecido da menina dos seus olhos do cinema Ternura. Casara-se com uma bela, irresistível, imagética e desafiadora. Dorme com ela Totó, mais o cinema lhe interrompe em noites que ele jamais imagina que seriam interrompidas.




Belmiro Santos